Uma tão grande alma para uma menina tão pequena
A Venerável Ana de Guigné, a mais velha de
quarto irmãos, nasceu em 25 de abril de 1911, em Annecy (Alpes franceses). Seu
pai era o Conde Jacques de Guigné e sua mãe Antonieta de Charette. O Conde era
tenente do 13º. Batalhão, Chambéry de Chasseurs Alpins. A avó materna de Ana
Francisca Eulália Maria Madalena de Bourbon-Busset era uma descendente direta
do sexto filho do Rei São Luís IX de França. A mãe de Ana era sobrinha neta do
General François de Charette, um dos líderes da contra-revolução da Vendeia.
Quando Jacques (Jojo) nasceu 15 meses
depois de Ana, esta ficou enciumada, jogava coisas nos olhos do bebê, inclusive
uma vez chegou a dar-lhe um pontapé. Felizmente isto não durou muito e logo ela
se sentiu feliz por ser a mais velha. Os primeiros 4 anos de Ana foram difíceis:
era muito difícil de controlar. Mas logo ela haveria de mudar.
Em setembro de 1913 Madalena nasceu e em
janeiro de 1915 Maria Antonieta. Ana era a madrinha de Maria Antonieta, que era
chamada por todos de Marinete. Quando Ana tinha 3 ½ começou a guerra entre a
França e a Alemanha, e seu pai foi enviado para o front. Um mês depois ele
volta ao lar após grave ferimento. Ana, que amava imensamente seu pai, começou
a cuidar dele trazendo-lhe livros e ajeitando as cobertas. Após nova ida para o
front, ele é ferido ainda mais do que anteriormente. A Sra. Guigné vai
visita-lo no hospital de Lyons levando Ana; a menina ficou comovida quando a
mãe mostrou-lhe os soldados feridos.
Em 3 de maio, sentindo-se melhor, o Conde
partiu novamente para o front. Na Alsácia, em 22 de julho de 1915, de Guigné,
após receber a absolvição, liderou o ataque com seu homens. Com um grande sinal
da cruz o Conde foi morto. A notícia de sua morte foi dada a Sra. Guigné em 28
de julho.
Naquela manhã a provada viúva conta para
Ana que seu pai morrera. Chorando, ela disse para Ana: “Se você deseja me
consolar, você precisa ser boazinha”. Olhando longa e pensativamente os olhos
de sua mãe, a menina compreendeu que para agradar a Deus ela precisava ser boa
e Ana resolveu ser boa para agradar sua mãe. O dia todo Ana ficou pensativa,
tentando fazer as outras crianças se comportarem. “Você precisa ser bom, Jojo,
porque a mamãe está triste”. Daí em diante não houve mais cenas temperamentais
nem egoísmos. Mas esta grande mudança não foi fácil para Ana; embora ninguém
adivinhasse a batalha diária com ela mesma, ela lutou.
Quando Ana tinha 4 anos, ela estava
caminhando com seu avô e eles passaram por uma armazém de trigo. Seu avô
perguntou: “Ana, você sabe o que se faz com o trigo?” Ana respondeu: “Não,
vovô”. “O fazendeiro apanha o trigo e então o moi e faz a farinha para nós. Nós
usamos essa farinha para fazer pão e também as Hóstias que o padre nos dá na
Missa. Você sabe o que a Hóstia se torna?” Ana respondeu: “O Pequeno Jesus vem
e se esconde na Hóstia branca, que se torna Jesus”.
Um mês antes de seu pai falecer, Ana
mencionara o desejo de se preparar para a 1ª Comunhão. No outono de 1915, a
Sra. Guigné colocou-a na aula de catecismo dada por Madre São Raimundo no Convento
Auxiliadora. A Madre São Raimundo percebeu que Ana, embora fosse uma criança de
apenas 5 anos, era mais adiantada do que dos restantes alunos. “Eu logo vi que
Ana era uma criança privilegiada; mas o que mais me causou admiração foi isto:
os outros não tinham ciúmes dela, embora ela fosse mais inteligente do que
qualquer um deles e a mais nova. Todos a amavam e a admiravam. Eu penso que é
porque ela nunca tentou se exibir ou se fazer de melhor do que ninguém. Ela era
gentil tanto com as crianças mais mimadas quanto com as que se comportavam bem”.
A 1ª Comunhão foi para ela um farol que
iluminou o resto da sua vida. Devido sua tenra idade (6 anos) necessitou uma
licença especial; foi admitida ao sacramento após um minucioso exame que levou
o padre inquiridor a confessar: “Não
somente está pronta como desejo que vós e eu estejamos sempre ao nível de
instrução desta menina”.
Em 26 de março de 1917 Ana fez a 1a.
Comunhão; era uma segunda-feira da semana da Paixão e festa de Nossa Senhora da
Assunção, que fora transferida para este dia porque o dia 25 caíra no Sábado da
Paixão. No grande dia festivo, Ana deixou um bilhete sobre o altar: “Meu pequeno Jesus, amo-Vos e, para Vos
agradar, tomo a resolução de obedecer sempre!” Assim prometeu, assim fez…
Ana tinha grande devoção a Nossa Senhora
das Dores porque Ela era “Nossa Senhora da Consolação”. Este título ela deu a
uma pequena imagem que havia no jardim, junto à qual as crianças brincavam. Ali
ela ia para pedir ajuda quando o auto controle se tornava mais difícil.
Aos 10 anos ela resolveu imitar Nosso
Senhor em tudo: “Como eu farei isto? Combatendo todos os obstáculos que impedir
Jesus de crescer em mim: minhas faltas, meu amor próprio, minha preguiça...
Isto deverá ser um combate diário”. Ela fez estas três resoluções: “Eu preciso
ter: 1) limpeza (de alma); 2) roupas apropriadas; 3) ornamentos – as boas
ações”.
Ana escreveu: “Minha alma destina-se ao Paraíso. As pessoas estão muito preocupadas com sua aparência exterior e
dificilmente com suas almas... Minha alma foi feita para a vida eterna, para
infinitamente feliz ou infinitamente infeliz. O Bom Deus deseja que ela seja
eternamente feliz. Isto depende somente de mim. Mamãe não pode fazer este
trabalho para mim”.
Certa vez um incêndio destruiu um casa
pobre próxima e Ana, ouvindo que a viúva e as crianças ficaram sem lar, pediu a
sua mãe se eles podiam fazer um bazar. As quatro crianças prepararam um “chá”
que foi “servido” para clientes como a mãe, o avô e tia Paula, que ficaram
contentes de pagar um montante que as crianças logo encaminharam para a família
da viúva.
Em novembro de 1919, Ana escorregou no
gelo e feriu um músculo de seu joelho. Ela ficou bastante machucada e tentava
se erguer; sua mãe correu para ajudá-la, mas embora tivesse lágrimas nos olhos,
não soltou um gemido. “Sinto muito por tê-la assustado, mamãe. Eu estou bem.
Não é nada”. Um ano depois de ferir seu joelho ela começou a ter muita dor de
cabeça. Para não chamar a atenção para suas terríveis dores de cabeça, Ana
continuou a fazer os seus trabalhos escolares e outras atividades, mas
finalmente algo chamou a atenção de Madre São Raimundo, que perguntou se Ana
tinha dores de cabeça, ao que ela respondeu afirmativamente.
Ana pacientemente oferecia todos estes
sofrimentos sem reclamar. A alguém que lhe disse: “Pobre Ana, você sofre
corajosamente”, ela respondeu: “Oh não, eu não estou sofrendo; eu estou apenas
aprendendo a sofrer”.
Em dezembro de 1921 as dores de cabeça
retornaram, mas o médico não pensou ser nada alarmante, pois ela não parecia
pior, apenas um pouco mais calma do que o costume. Mas em 19 de dezembro de
1921, as dores de cabeça se tornaram tão severas, que ela foi levada para seu
quarto. O médico continuou pensando que não era nada sério até que em 27 de
dezembro, quando ele viu que Ana estava em coma concluiu que ela tinha
meningite.
Pela tarde ela recobrou a consciência, mas
a terrível dor de cabeça, a febre e a dor nas costas faziam sua face se
contorcer devida a dor. Ela resolveu: “Eu desejo oferecer meus sofrimentos como
Jesus fez na Crus”. Com uma incrível fortaleza, ela nunca reclamava ou chorava.
“Você está consolando Jesus e convertendo pecadores”, sua mãe lhe recordava.
Ela respondeu: “Bem, então, se é assim, desejo sofrer ainda mais”. Ela foi
ouvida dizer certa vez “O, querido Deus, eu estou muito mal!” Uma vez, quando
ela estava delirando, ouviram-na gritar: “Eu fui fiel, Jesus? Pequeno Jesus, tenho medo de não ter sido
valente. Eu não rezei o suficiente. Querida Santa Ana, tem piedade de meus
pecados”.
Aproximando sua morte, Ana nunca falava de
sua morte próxima diante de sua mãe, para não causar sofrimento a ela. Ana sempre agradecia aquele que tinha feito
alguma coisa para ela. Quando o confessor vinha ouvi-la em confissão e lhe dava
a comunhão, antes do padre deixar o quarto, ela o chamava e lhe agradecia.
No dia 30 de dezembro, Ana recebeu a
Extrema Unção. No Dia do Ano Novo ela parecia estar se sentido melhor. Mas dois
depois o médico constatou que os músculos do peito estavam paralisados e Ana
teria ataques de sufocação que duraria horas. Por duas semanas ela sofreu desta
maneira e na noite de 13 de janeiro Ana pergunta a sua tia, que era religiosa:
“Irmã, posso ir com os anjos?” “Sim, minha querida criança”. “Obrigada, Irmã. Oh obrigada!”. Às 5:25
do sábado, 14 de janeiro de 1922, Ana olhando obedientemente pela última vez
para sua mãe, faleceu.
Esta pequena menina é uma “santa”, é o
veredito geral. A sua professora deixou o seguinte testemunho: “Foi ela que me ensinou o que é amar Deus”.
Os testemunhos abundam, artigos são
publicados e o bispo de Annecy inicia em 1932 o processo de beatificação.
Os estudos conduzidos em Roma sobre a
possibilidade da heroicidade das virtudes da infância foram concluídos
positivamente em 1981 e a 3 de março de 1990 o decreto reconhecendo a
heroicidade das virtudes de Ana de Guigné e declarando-a venerável era assinado
pelo papa João Paulo II e indicou-a como exemplo para todas as crianças e não
só elas.
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Ana aos 9 anos, imagem da inocência |
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